Por Jacqueline Vilela

Querida mãe de adolescente,

E, de repente, o seu filhinho(a) virou um adolescente. De uma hora para outra você, foi demitida do cargo de administradora da vida dele e está perdendo terreno para os amigos e as tecnologias.

De repente, você sente um aperto no peito porque os convites para sair são seguidos de sonoros: “Não quero, não vou, é chato”.

De repente, você sente medo. Muito medo. Porque foram anos de intensa dedicação ao seu filho que são colocados à prova e você não está segura se fez o suficiente.

De repente, você acorda e está sendo julgada: “Ah, não soube educar na infância”; “O filho está assim porque os pais não deram limites”; “Os adolescentes de hoje estão assim por culpa dos pais”.

De repente, você se culpa também: ”Fracassei”; “Não soube ser uma boa mãe”; “Meu filho está igual a mim, e agora?”; “Será que ainda dá tempo?”.

De repente, tudo o que parecia seguro – a criança com futuro brilhante, que teria uma vida melhor do que a sua, menos sofrida do que a sua, com menos ansiedade e tristeza do que você, com mais possibilidades do que você teve etc. – se torna instável. Você vê o seu filho fazendo o oposto do que você, em todos os sonhos de futuro, imaginou.

De repente, você se depara com um filho diferente. Diferente no corpo, nas palavras, nas atitudes, no modo de lidar com as coisas, nos perigos com que se envolve.

É como se todo o seu esforço, a sua dedicação, as horas de cuidado, de sono não dormido e de amor não tivessem sido suficientes para fazer do seu filho a pessoa que a sociedade quer que ele seja. E, secretamente, que o seu filho não tenha se tornado a pessoa que você gostaria que ele fosse.

“Ok, deve ser então uma fase”, você pensa. E esse pensamento acalma você por algum tempo, até ler sobre o menino que passou em uma faculdade pública para medicina, da garota que ganhou as Olimpíadas de matemática e ver fotos de pais incríveis postando o quanto se sentem orgulhosos dos seus filhos adolescentes incríveis.

E novamente a vozinha na sua cabeça fica lembrando você de que talvez não tenha feito o suficiente. Você repassa uma série de coisas que leu e que precisa agora praticar: “Não pode gritar, não pode se estressar, precisa ter calma, paciência, precisa dar amor e isso será suficiente, precisa rezar mais”, e por aí vai.

E você, que parece uma panela de pressão por dentro, se segura para não explodir. Se segura para parecer que está tudo sob controle e que você, assim como todas as mães de adolescentes, sabe o que fazer.

Até o dia em que você transborda e chora. Ou chora todos os dias escondida. Ou reza todos os dias por um milagre. E no dia seguinte recomeça a vida e o ciclo de culpa, medo, frustração e solidão.

No fundo você se sente sozinha porque, oras, as pessoas possuem as suas próprias vidas e não dá muito para você ficar levando os seus problemas para elas. E também é duro ouvir conselhos do tipo “faça isso” ou “faça aquilo” e sentir que todo mundo sabe a resposta menos você.

Bom, o final desse jogo é você sempre tentando se convencer de que precisa dar conta, afinal, mães são leoas, têm sexto sentido, intuição aguçada e em algum momento encontrarão a resposta, não?!

É DURO OUVIR CONSELHOS DO TIPO
“FAÇA ISSO” OU “FAÇA AQUILO”
E SENTIR QUE TODO MUNDO
SABE A RESPOSTA MENOS VOCÊ

Pois é, querida mãe, fizeram você acreditar em um mundo que não existe e hoje você luta consigo mesma para se encaixar nele, mesmo sofrendo e dilacerada por dentro. Você luta para não ser a mãe louca que grita com o filho, a mãe permissiva que estragou o filho, a mãe controladora que sufocou o filho ou qualquer mãe que você acredita que é (ou que não deveria ser).

Hoje eu quero que você receba o meu abraço. Preste bem atenção nessas coisas que preciso dizer a você:

Eu quero dizer a você que, pode ter certeza, você fez o que podia e chegou até aqui fazendo o seu melhor.

Eu quero que você saiba que, se você não fez mais, foi porque com certeza não sabia como, afinal, filhos não nascem com manual de instruções.

Eu quero dizer a você que a vida não é um comercial de margarina, então, por favor, não acredite nas fotos que você vê. Elas fotos mostram o palco das pessoas, e eu garanto que os bastidores são bem diferentes.

Eu quero dizer a você que talvez a sua vida não tenha sido fácil. Talvez tenha faltado para você amor de mãe, de pai, relações familiares para você se espelhar e que isso tenha gerado um grande vazio que ainda precisa ser curado e preenchido. Talvez a sua vida até aqui não tenha acontecido como você sonhou e você sofreu com uma separação, com uma perda, com um problema na família e isso causou em você e no seu filho marcas profundas.

Eu quero dizer a você que o cansaço nos leva a ações que não queríamos. E que você não aprendeu com ninguém, nem em escola e nem com os seus pais, a lidar com as emoções. Você aprendeu a engolir o choro, a não mostrar sentimentos – como então você poderia saber lidar com os sentimentos de um filho adolescente?

Eu quero dizer a você que o seu grito (o que você segura e o que você solta) quer mostrar a necessidade de parar e olhar para si mesma. Que você precisa parar de se culpar, de se esconder achando que é a única mãe do universo inteiro que errou com o filho.

Eu também quero dizer a você que precisa parar de se defender e de ficar dizendo que não precisa de ajuda ou então julgando outras mães só para se sentir melhor. Isso é um mecanismo de fuga e, acredite, não levará você a lugar nenhum, senão a mais culpa.

Eu quero dizer a você que as pessoas que julgam você também estão feridas em alguma parte da vida delas. E que não é pessoal, apenas estamos todos tentando sobreviver a esse mecanismo da sociedade, de informações rápidas e de busca de aprovação.

Eu quero dizer a você que continuar falando que sabe como educar seu filho adolescente não liberta você, mas aprisiona. E que é ilusão querer fazer parte de um padrão de sociedade que não existe. Pense comigo: se os especialistas dizem que estamos caminhando para a geração de adolescentes mais triste dos últimos tempos, não pode ser só você, uma única mãe, a responsável por todo esse quadro.

E então fica fácil deduzir que uma parcela enorme de mães e pais está negando os problemas, as dificuldades e os conflitos, e isso está criando um maravilhoso “mundo de Alice no País das Maravilhas”, ilusório e arriscado.

O mundo de “faz de conta” é tão perigoso quanto o mundo da culpa e da vergonha. Assuma as suas dificuldades, conecte-se com a sua verdade de amor, de esperança e de fé. Apesar de todas as suas dúvidas e incertezas, você continua sendo a melhor mãe para o seu filho e é a melhor pessoa para orientá-lo, amá-lo e guiá-lo.

Todos nós somos amor, mas em algum momento nos esquecemos disso e entramos no caminho do medo.

Não há vergonha no amor. Não há espaço para dúvidas no amor. O seu filho também é amor, não importa o quanto hoje ele não pareça estar conectado com isso.

Hoje eu faço a você um convite para olhar para a adolescência do seu filho como quem olha para um presente. Talvez esse presente tenha vindo embrulhado em um papel chamado “problema” e você não saiba como desembrulhar, mas eu afirmo que, quando aprender a encarar de frente e conseguir ferramentas para lidar com cada pedra no caminho, a recompensa valerá muito a pena.

O SEU FILHO TAMBÉM É AMOR,
NÃO IMPORTA O QUANTO HOJE
ELE NÃO PAREÇA ESTAR
CONECTADO COM ISSO

Içami Tiba, que foi um grande educador, disse que a adolescência é um novo nascimento. Nasce um novo filho e uma nova mãe, mais madura, com cicatrizes, mas que, se descobrir o poder que conquistou na experiência de vida, vai recuperar a confiança para fazer o que precisa ser feito.

E se é um novo nascimento, é hora de você aprender a ser mãe de adolescente. E não há nada de errado com isso, na verdade, quem acredita que tudo sabe perde a oportunidade de se reinventar.

Hoje, faça algo por você. Tome um banho demorado, ouça a sua música preferida, coma uma comida que você goste. O maravilhoso da vida é que todos os dias temos a chance de recomeçar e sempre é tempo para reescrever os finais das histórias.

Se você leu até aqui, obrigada. Eu também sou uma mãe em evolução. Erro, tenho medo e sinto culpa. Tem momentos que não sei o que fazer da minha vida e nem com a minha filha. Não gosto de me sentir vulnerável (na verdade, detesto com todas as minhas forças), eu me irrito e choro. Minha vida não é perfeita e, olhando para as minhas fotos, pode ser que você não veja tudo isso. Mas esse é o meu palco, lembra? O meu bastidor nem sempre é tão bonito e aceitar isso me fez mais forte, mais consciente e mais feliz.

E, indiscutivelmente, quando me permito ser mais vulnerável, a ajuda chega – da pessoa certa, na hora certa.

Você é forte, guerreira, linda, poderosa, batalhadora e amorosa, e se hoje está difícil acreditar nisso, recomece. Um dia de cada vez, um passo de cada vez. Mas não desista.